Mario Waddington
Exatamente no dia 17, numa linda manhã de agosto, do ano de 2007, quando estava indo do bairro do Castelo para Botafogo, Rio de Janeiro, entrou no ônibus um sujeito vestindo um macacão de cetim, de cor amarela, pintado com círculos pretos, rosto perfeitamente maquiado à moda antiga, nariz vermelho, peruca preta e grandes orelhas de borracha, apresentando-se, educadamente, com voz impostada e estridente, como o amigo Palhaço Orelha.
A sua alegria contrastava com a sisudez dos passageiros, que o encaravam como mais um chato a perturbar-lhes a viagem para o trabalho, vendendo miudezas através de uma lengalenga já muita bem conhecida de todos. Mas tal fato não ocorreu, o Palhaço Orelha, com a paciência de um professor primário, foi-se mostrando engraçado, observador e rápido nas suas falas e respostas.
Um homem que estava sentado à minha frente, de uns 40 anos presumíveis, de vestes simples, rosto marcado pelas dificuldades que a vida lhe impunha, ria feliz, como uma criança, vendo de perto aquele maravilhoso personagem que, com certeza, encheu de felicidade a sua infância. Obviamente que o Palhaço Orelha dedicou-lhe especial atenção, com um respeitoso carinho de uma brincadeira simples e ingênua.
Aquele saltimbanco conversava com todos, perguntando se alguém estava aniversariando naquela data. Se encontrasse, então, todos iriam cantar "parabéns pra você" em sua homenagem. Estava claro que ninguém iria se apresentar, pois iria, inevitavelmente, se tornar um companheiro daquele palhaço e iria ser gozado até o final de sua viagem.
Preferiu o alegre bufão dar um caloroso “bom dia!”. Respirou fundo, pedindo que os passageiros fizessem o mesmo. Constrangidos, muitos num destoante coro, conseguiram dar o tal do “bom dia!”. Quebrado o gelo, o palhaço passou a vender mimosos cartõezinhos com mensagens de amor e carinho. Compadecido daquela alegre e triste figura, comprei dois, imaginando como seria a vida real daquele jovem ator, e as suas dificuldades e tristezas. Como era capaz de rir, de fazer os outros rirem, com o peso da intolerância humana?
O Palhaço Orelha enfim se despediu de todos, agradeceu aqueles que o ajudaram e os que lhe deram apenas a atenção, num pequeno e ineloqüente discurso, síntese do resultado de sua excessiva repetição.
Depois de algum tempo, ao levantar-me para sair do ônibus, surpreendi-me ao ver o Palhaço Orelha no ultimo banco, sentado próximo à janela, em silêncio, sentindo a brisa em seu rosto, com olhar vago, sem se importar com o tempo, com o seu tempo, pois o amanhã, que ansiosamente o aguardava, não tinha a menor graça.
Sem picadeiro e sem fanfarra, sem luzes coloridas e vistosas bailarinas, vive esse solitário palhaço apenas com seu respeitável público, oferecendo sua efêmera alegria e seu enigmático sorriso que só à lembrança contagia.
segunda-feira, 27 de agosto de 2007
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