Mario Waddington
Vens devagar, à noite e sorrateira,
Denunciando, através das folhas, o teu chegar.
Fria, silenciosa, com teu corpo pulverizado no vento a dançar, penso:
O que representas? Quem és? O que queres? Qual o teu segredo?
Por que tudo se emudece com a tua misteriosa presença?
Repentino o ribombar do trovão, severo tutor da água,
Revelando num claror, outeiros e vales, com o raio que fulgura impetuoso,
Denunciando obscuros lugares à procura do medo.
É forte o teu murmurar, o teu pisar, a tua presença.
Aumentas a tua intensidade,
Como lágrimas de desespero,
Na tortura do vento que procura escravizar esse sofrimento,
No divino movimento de uma criativa força descomunal.
Tudo se movimenta com a energia acelerada do néctar despejado,
Vegetais se abrem para receber a vida,
Troncos são limpos dos galhos e folhas ressequidas,
E o forte alísio, impiedoso, açoita os ramos,
Fazendo-os entoar melancólicas melodias.
Inúmeros córregos repentinos invadem como soldados,
Com as suas armas barrentas,
À terra desesperada,
À procura de desabrigados e fugitivos de sua força arrebatadora.
Mas a misericórdia divina
Torna efêmera a intensidade do prodigioso momento.
Por não conhecer a morte,
Ameniza a força e concede a brandura da aragem,
Mas, sob o domínio da garoa, a noite torna-se prudente.
A negritude do momento, amparada pelo silêncio,
Tudo aquieta sob um frio manto.
As aves noturnas, em respeitoso vôo,
Movimentam-se sem alarde,
Como se estivessem em um templo.
Meu coração busca pela luz do dia,
Mas minha alma leva-me às lembranças de outrora.
Acomodo-me e aqueço-me,
Uma torrente de lágrimas de felicidade corre sobre minha face,
E descubro agora o sentido da chuva.
segunda-feira, 17 de setembro de 2007
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2 comentários:
Querido,
Adorei essa sua chuva, nunca havia lido tão plena.É como a que sinto, às vezes, lá onde vivo percebe-se a precisão da casa rodeada por ela e a imagino assim tocando toda natureza ao entorno e por dentro, na nossa casa interna também. Bélissimo!
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